Toda a pessoa apaixonada é um publicitário em potencial. Não
anuncia cigarros, hidratantes ou máquinas de lavar, mas anuncia o seu amor,
como se vivê-lo em segredo diminuísse a sua intensidade.
O hábito começa na escola. O caderno abarrotado de regras
gramaticais, fórmulas matemáticas e lições de geografia, e lá, na última
página, centenas de corações desenhados com caneta vermelha. Parece aula de
ciências, mas é introdução à publicidade. Em breve estará a desenhar corações em
árvores, escrevendo atrás da porta das casas de banho e grafitando a parede do
corredor:“Eva ama
Adão”
A partir de uma certa idade, a veia publicitária vai tornando-se mais discreta. Já não
anunciamos a nossa paixão em muros e bancos de jardim. Dispensa-se a mídia de
massa e parte-se para o telemarketing. Contamos por telefone mesmo, para um
público selecionado, as últimas notícias da nossa vida afetiva. Mas alguns não
resistem em seguir propagando com alarde o seu amor. Colocam anúncios de
verdade no jornal, geralmente nos classificados: Filipa, amo-te. João, volta
pra mim. Flávio, não me deixes por essa loira da farmácia. Joana, foi bom pra
ti também?
O grau máximo de profissionalismo é atingido quando o
apaixonado manda colocar a sua mensagem num outdoor em frente a casa da pessoa amada. O
recado é para ela, mas a cidade inteira fica a saber que alguém está a tentar
recuperar o seu amor. Em grau menor de assiduidade, há casos em que os
apaixonados mandam despejar de um helicóptero pétalas de rosas no endereço do
namorado, ou gastam uma fortuna para que a fumaça de um avião desenhe as
iniciais do casal no céu. A criatividade dos amantes é infinita.
O amor é uma coisa íntima, mas todos nós temos a necessidade
de torná-lo público. É a nossa vitória contra a solidão. Assim como as torcidas
de futebol comemoram seus títulos com buzinaços, foguetório e cantorias,
queremos também alardear nossa conquista pessoal, dividir a alegria de ter
alguém que faz o nosso coração bater mais forte. É por isso que, mesmo não sendo adepta do
estardalhaço, consterno-me por aqueles que amam escondido, amam em silêncio,
amam clandestinamente. Mesmo que funcione como fetiche, priva o prazer de ter
um amor compartilhado.
Martha Medeiros
15:43
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